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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Prevenido.

As noites nunca são iguais mesmo para os que pouco reparam e para os que pensam que as estrelas, ainda estão ali. Naquele bar, apesar das pessoas se repetirem tanto em seus pedidos, gostos e gestos; apesar da reprise noturna de seus sonhos e de suas angustias mal disfarçadas e das explosões esporádicas, de qualquer alegria fulgaz, as noites eram notóriamente diferentes. O mesmo palco embaçado pela média luz e pela teimosia invariável do enredo. Ali estavam histórias com intensidades determinadas pelo poder do olhar.  Eram tantas mesmas histórias diferentes para cada par de olhos e para o que mais estivesse disponível e com disposição de explorá-las. O bar man conhece cada um dos personagens e é capaz de acertar a personalidade do ser,  inspirado nos indicios de  preferências do cardápio. Quase os mesmos sabores, sempre. A mesma mesa, se possível. Tudo igual e tudo diferente. Tudo previsivel e inexplicadamente surpreendente. Assim eram as noites, no bar. Foi essa a impressão que ele tinha, até a noite que ela entrou naquele espaço noturno e à média luz, concedeu a clareza intensa. Holofotes sobre ela. Poderia ser mais uma história tão parecida e tão diferente pra cada jeito de olhar, mas especialmente essa  tinha ares de singular. Ela chora no balcão a dor sangrada do amor perdido. Ela chora porque queria dizer adeus, mas  a palavra se perdeu no entre abrir das portas que liberam o som e ela, não soube pra onde foi. Ainda se sente sufocada e  engasgada pela palavra que nem está mais ali. Quer se livrar de tudo, inclusive das chaves da porta que se abrir, sabe o que encontrará por de trás.Quer se livrar do de trás, mas este parece mais dificil do que livrar-se das chaves.  Há um lugar especial para elas, naquele bar. Para as pessoas que choram e para as chaves. Um depósito. O bar man passou a guardá-las. Sabe sobre cada uma. Sabe que não serão recolhidas, sabe que ninguém chegará para buscá-las. Porém, acreditou que não poderia livrar-se delas, sob a penalidade de impedir assim, que uma daquelas portas nunca mais se abrissem. Ele guardou a esperança de cada  chave, ali no depositário, sem que os doadores soubessem. Contou a ela todas as histórias, cada uma de cada chave abandonada. Contou a dele. Escutou a dela. Por conta de sua indisposição ela deixou que ele sugerisse o gosto que ela provaria. Ele a serviu um gosto doce, que raramente alguém pedia. Era esse, sempre o doce que sobrava. Não havia nada de errado com o gosto doce, talvez houvesse algo de errado com os pedidos que se repetem fechando as portas para alguma novidade.O doce foi como a chave que abriu nela a vontade de fazer um caminho mais longo, naquela noite. Ela foi, não disse a ninguém pra onde, porque não sabia. Ele ficou exatamente no mesmo lugar, daquele palco que era o bar. Ficou porque ensinaram a ele, que quando se perdesse de alguém, deveria ficar imóvel, tanto quanto possível, porque assim seria mais provável o reencontro.Foram noites imóveis. Foram mais chaves depositadas. Foram mais histórias repetidas. Ela se foi como as estrelas, deixou suas chaves e deixou sua luz. Ele acredita que ela voltará, não pra buscar as chaves, nisso ele mantem a certeza de que nunca as recolhem, mas pra repetir o gosto doce, que ele continuará produzindo, prevenido pra quando a porta se abrir e ela outra vez chegar.

3 comentários:

Aline Poitevin disse...

E assim ele continuará....

Rodrigo Passos disse...

gostei do gosto de suas palavras!!

Rick disse...

Não posso deixar de apontar em letras minha observação. Gosto de ler blogs. Estes de bom gosto e boa escrita,mas...
Quem escreve bem, ama errado. Sei por mim.
Saudações!